A Vestimenta Cênica de Burle Marx

Os conceitos mais simples são os mais complexos para serem analisados; experiências e definições que não demandam uma reflexão no cotidiano acabam se tornando parte da percepção coletiva (e automática) do universo invisível que habita o nosso arredor. Um exemplo: a linguagem.

Talvez você nunca tenha se questionado, mas é um conceito amplo, que vai muito além de um simples idioma. O cinema é uma linguagem; Glauber Rocha o utilizava para se comunicar. A arquitetura também. Afinal, era o meio que Lina Bo Bardi utilizava para se expressar, não era? E o paisagismo é a linguagem desenvolvida por Burle Marx para se conectar e comunicar com o mundo, através de suas construções narrativas e formas, feitas com diferentes espécies, elementos e materiais,, de mudas a cortinas de teatro.

Fotografia Original de Luis Knud Correia de Araujo. Créditos Adicionais: Pedro Araujo, NYBG

Considerado um dos maiores paisagistas do século XX, Roberto Burle Marx - ou apenas Burle Marx - começou a desenvolver a sua linguagem logo na infância, através do apoio de sua família: Cecília Burle, pianista e amante das artes clássicas, e Friedrich Marx, comerciante alemão e exportador de peças de couro no Brasil; Duas personalidades que contribuíram diretamente para sua formação artística, que, posteriormente contemplaria: artes plásticas, pintura, desenho, design, escultura e música.

Ainda na infância, quando a família Marx morava no Leme, no Rio de Janeiro, Roberto tornou-se responsável por cuidar das plantas da propriedade da família, despertando o seu fascínio pela flora, através da análise de texturas, cores e elementos naturais que compunham aquele cenário familiar. De acordo com o filme Paisagem, um olhar sobre Roberto Burle Marx, foi neste momento que ele iniciou sua primeira coleção de mudas.

Em 1929, aos dezenove anos, iniciou sua formação formal em Berlim, no ateliê de Degner Klemn, assimilando princípios do modernismo em suas aulas de pintura, diante das novas tendências artísticas das vanguardas europeias, impulsionadas pelo movimento pós-guerra de um continente em reconstrução. Ao retornar ao Brasil, ingressou na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, convivendo com futuros grandes nomes, como Oscar Niemeyer, Cândido Portinari e Mário de Andrade. Apesar de não possuir formação formal em paisagismo ou arquitetura, sua visão expandiu os horizontes multidisciplinares, com a valorização da flora nativa, por meio de jardins e criações que exaltavam a biodiversidade brasileira, em ambas as artes.

“Roberto foi um dos primeiros a usar plantas nativas em projetos paisagísticos nos anos 30. Ele reconheceu a diversidade e riqueza da flora brasileira, sua beleza e importância” - Instituto Burle Marx

Ao longo de sua vida, foram mais de 2.000 projetos realizados; Burle Marx tornou-se uma assinatura de autoridade, carregando consigo identidade, cultura e brasilidade, através do que mais tarde fora denominado como paisagismo tropical moderno. Além disso, foram produzidos mais de 1.200 quadros, entre os mais aclamados: Mundo Novo (1986) e Favela (1991). No entanto, um de seus maiores - e mais desafiadores - projetos foi uma cortina de boca de cena, feita especialmente para o Teatro Anchieta, no atual SESC Consolação.

Cortina de Boca de Cena de Burle Marx, no Teatro Sesc Anchieta. Foto: Matheus José Maria

Na década de 1960, o arquiteto Ícaro de Castro Mello tornou-se encarregado do projeto “Edifício SESC Consolação”, enquanto o cenógrafo Aldo Calvo foi encarregado de desenvolver a cenotecnia do espaço teatral. Logo, Burle Marx foi convidado para assinar a vestimenta cênica que caracterizaria todo o ambiente.

Em 14 de novembro de 1967, o teatro avistou a cortina de boca de cena pela primeira vez; Um verdadeiro espetáculo! Uma amostra expressiva e modernista do poder das cores, através de curvas e formas suntuosas, que representavam um belo conflito entre uma composição calorosa e amigável, transportando os espectadores para um espetáculo à la Brasil.

Teatro Anchieta, em 1967. Foto: Acervo Sesc Memórias

A vestimenta cênica permaneceu pública até 1972. Diante das primeiras reformas do edifício SESC Consolação, ela foi arquivada no Acervo Sesc de Arte Brasileira, mantendo-se distante dos olhos do público por trinta e oito anos.

Em 2018, uma grande equipe multidisciplinar foi contratada para administrar e gerir o restauro da vestimenta cênica de Burle Marx. Dentre eles, a Cineplast, que foi responsável pelo processo inicial, logo após o desarquivamento da peça. A reparação se iniciou com o estudo das formas, da coloração e da tipologia do tecido utilizado em sua confecção inicial, de modo que nenhum detalhe fosse alterado. A costura de reparação tomou lugar na sede da empresa, na cidade de Vinhedo, no interior de São Paulo. No ateliê de produção, os tecidos foram recuperados com mão de obra especializada, somando mais de sessenta anos de experiência.

Em seguida, ela foi enviada para São Paulo, onde passou por um novo projeto de revitalização das cores, em um ateliê especializado. Assim que finalizada, a equipe da Cineplast instalou os novos trilhos no teatro e reinstalou a peça histórica no dia 5 de julho de 2018 — onde permanece pública até o presente.

“Um dos privilégios do nosso trabalho é a oportunidade de nos encontrarmos com grandes ícones da história brasileira, sejam eles personalidades ou espaços propriamente. Preservar a história é uma verdadeira virtude, principalmente quando fazemos disso parte da nossa própria trajetória” - Cineplast Cenotecnia